sexta-feira, 20 de julho de 2012

A dor da incerteza

Há algum tempo, Ana Sofia tem cobrado de mim um irmão. É Bruninho pra cá, Bruninho pra lá. Já deixou alguns brinquedos, roupas, carrinho de bebê e o berço pra ele. Daí comecei a falar com ela da possibilidade de vir uma irmã, que não é a gente que escolhe, etc. Então ela disse que ia pedir ao Papai do Céu para colocar duas sementinhas na minha barriga, pra ter um irmão e uma irmã.
Quando eu e o Bruno resolvemos ter o segundo filho, fui ao médico, fiz todos os exames, comecei a tomar o ácido fólico e depois de muito pensar parei de tomar o anticoncepcional. Pensei que iria demorar a engravidar e depois da primeira menstruação a segunda não veio. Um semana depois da data prevista para ela vir fiz um exame de sangue e junto com o Bruno abri o resultado que deu positivo.
Fiquei nervosa, meio trêmula, mas muito feliz. A vontade era de gritar pra todo mundo, mas Bruno conteve minha ansiedade e resolvemos que iríamos na médica primeiro pra saber se estava tudo certinho para depois contar a novidade.
Consulta feita, começamos as ligações para os familiares que ficaram muito felizes. Mais tarde contamos pra Ana Sofia que, no alto de seus três anos e abatida por uma forte gripe, não deu muita bola. Ficou feliz, mas nada de festa. Alguns dias depois, já melhor da doença, começou a contar pra todo mundo na escolinha muito feliz. Fiquei aliviada.
Os dias foram passando e eu não sentindo quase nenhum sintoma de gravidez como eu senti na da Ana Sofia: um pouco de enjôo pela manhã e os seios doloridos.
A verdade também é que não diminuí meu ritmo de trabalho e peguei peso como se nada tivesse mudado na minha vida.
Na última quarta-feira fui para a formatura de uma turma de um curso que estava coordenando e comecei a sentir alguma coisa como se estivesse começando a menstruar. Durante a cerimônia minha cabeça ia longe... pensava que poderia estar perdendo meu filho naquele momento.
Fui ao banheiro e notei uma sujeirinha escura saindo de mim. Respirei fundo e continuei até o final porque sabia que o mais grave seria se estivesse saindo um sangue em vermelho vivo.
Chegando ao meu local de trabalho liguei para minha médica e não consegui falar com ela. Fui para a maternidade com meu amigo enfermeiro e fui encaminhada para fazer um ultrassom de urgência. O médico não quis dar muitos detalhes e pediu para fazer repouso e ligar para minha médica. Bruno chegou e passamos no plantonista que também disse que tenho que esperar mais duas semanas para fazer outro ultrassom. Neste próximo já teremos que ouvir o coração se estiver tudo certo. Com a orientação confirmada pela minha médica de que era pra fazer repouso e que o que só podia fazer era esperar, saí inconformada do hospital.
Com esta dúvida e insegurança me consumindo resolvemos que seria melhor que eu viesse para Itabira ficar com minha mãe e com Ana Sofia. Só sabia chorar, com uma sensação de culpa, impotência, incompetência.
Com as palavras de conforto do Bruno, colo da minha mãe e dormindo agarradinha na Ana Sofia fui acalmando.
Passei o dia na cama e fuçando a internet. Vi que muitas mulheres passaram por isso e que depois do repouso a gravidez evoluiu normalmente. Outras precisaram tomar um remédio chamado Utrogestan. Outras, infelizmente, abortaram.
Estou tentando manter a Ana Sofia a margem do que está acontecendo. Só falo que estou doente, que preciso ficar deitada e que não posso carregá-la. Às vezes quando estou sentada ela vem se achegando e pega um colinho. Mas, na maior parte do tempo, ela fica deitada do meu lado, me dando muito carinho. Hoje colocou uma cadeira perto da minha cama e disse que iria cuidar de mim, que se eu precisasse de alguma coisa era só pedir. Daí pedi carinho e ela veio fazer cafuné na minha cabeça.
A coitadinha poderia estar aproveitando muito suas pequenas férias e está aqui, "cuidando de mim", só Deus sabe o quanto isso me dói!
Hoje pela manhã saiu um pouco de sangue de mim e entrei em desespero. Tive uma crise de choro e, se não fosse minha mãe para acalmar-me, não sei o que seria de mim.
Fui para o hospital com minha sogra (minha mãe ficou com Ana Sofia) e encontrei um médico amigo que, ao saber da situação, encaminhou-me direto para o ultrassom.
Explicou que apesar da idade gestacional ser de 7 semanas, o tamanho pelo ultrassom está de 5 semanas. Que pode ser uma gravidez mais nova ou que a gravidez pode não estar evoluindo como deveria. Que com este tempo ainda não dá pra ouvir o coração nem ver muita coisa. Mas que o sangramento é grave e que tenho que me preparar para o pior. Sugeriu usar o tal medicamento, continuar em repouso e repetir o ultrassom daqui a dez dias.
Esta espera, esta incerteza, esta expectativa... isso vai consumir-me. O não saber é pior do que a certeza pelo negativo. Pensar em como vou contar pra Ana Sofia que o sonho acabou, pelo menos por enquanto...
Qualquer outra gravidez que houver depois, se esta não evoluir, vai ser tensa.
Tenho uma viagem programada para a semana que vem e vou assumir o risco de ir. Ficarei quietinha no hotel enquanto Bruno vai tentar distrair a Ana Sofia um pouquinho. Espero que assim o tempo passe um pouquinho mais depressa pra mim, porque ficar em casa de molho vai acabar com o meu emocional mais do  que já está abalado.
As pessoas tentam confortar-me dizendo que sou nova, que posso ter outros filhos, mas não tenho como explicar como isso dói. Não fisicamente, mas dói no coração. Já tinha imaginado tanta coisa pra este serzinho que nem coração batendo tem ainda. Fizemos planos, encorajei-me de novo a entrar na auto-escola, comprei mantinha... Já o amo tanto que a sensação de estar perdendo-o aos pouquinhos e não poder fazer nada é muito ruim.
Faria qualquer coisa para mantê-lo protegido aqui, mas agora só posso pedir a Deus que faça o que for melhor pra ele. E eu ficarei aqui, esperando a Sua vontade e pedindo à Ele que me dê forças para suportar esta provação.
À você, filhinha, tenho a dizer que a mamãe tentou e continua tentando te dar um irmãozinho. Se não for desta vez, espero que me  perdoe e que tenha um pouquinho mais de paciência para poder ter o seu companheirinho.
Espero voltar aqui em breve com boas notícias...